Publicado: Terça, 19 Janeiro 2016 10:25
  Fonte: Folha de São Paulo
  Link: http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2016/01/1730378-novas-avaliacoes-vao-medir-criatividade-de-alunos-diz-educador.shtml

O educador Paulo Blikstein, 43, em São PauloUm dos maiores especialistas em tecnologia aplicada à educação do mundo, Paulo Blikstein, é brasileiro e dá aula na Universidade Stanford, nos EUA, escola que figura no topo de rankings internacionais.


Lá, ele participa de um grupo que desenvolve pesquisas educacionais seguindo metodologias científicas à risca.

Para verificar se uma determinada tecnologia melhora o desempenho de alunos, por exemplo, Blikstein e colegas desenham uma amostra, montam grupos de controle e replicam o modelo em diferentes escolas.

Entre seus estudos recentes, descobriu que deixar alunos fazerem experiências antes de ensinar teorias aumenta em até 25% o aprendizado.

Ele também tem participado da reformulação de sistemas tradicionais de avaliação de educação, como o Pisa, da OCDE. Para ele, o aluno do século 21 será avaliado pelo seu conhecimento, mas também pelas suas competências, como sua criatividade.

O pesquisador falou com a Folha durante uma passagem de férias pelo Brasil. Leia abaixo trechos da entrevista.

Folha - Você é engenheiro de formação e acabou se enveredando pelos estudos de educação. Como foi essa trajetória?

Paulo Blikstein - Estudei na escola da Madalena Freire, filha do Paulo Freire, que não existe mais. Lá não havia notas nem provas, o currículo era decidido pelos alunos e pelos professores em conjunto. Depois disso, fui para lugares muito tradicionais como a Poli-USP. Entendi o potencial da educação quando ela dá para os alunos lentes diferentes para enxergar o mundo. Por muitos anos, nem sabia que existia essa coisa de nota na escola. A gente simplesmente fazia o melhor porque esse era o contrato tácito.

Você estudava porque gostava?

Estudava porque achava interessante. Claro que nem sempre você pode fazer o seu melhor em todas as áreas, mas você tenta. Na educação tradicional, a gente adestra as crianças a fazer o mínimo possível. Na experiência que tive era o contrário, a gente tentava fazer o máximo necessário para contribuir para o grupo e para o próprio desenvolvimento.

É a proposta de Paulo Freire.

Costumo dizer que Paulo Freire é o grande incompreendido da educação brasileira. Ele é o intelectual mais conhecido no mundo, mas aqui há uma interpretação politizada demais. A ideia dele era tornar a escola mais produtiva e transformadora.

É possível ter uma educação transformadora e produtiva no modelo de escola que predomina hoje no Brasil?

É difícil. Uma parte da minha preocupação como pesquisador é como traduzir os ideais que acredito em ações e em políticas públicas que possam ser implementadas. O problema é que as metodologias mais modernas de educação estão nas escolas de elite, mas as escolas públicas continuam presas no século 19. A questão é como será possível reproduzir tecnologias em baixo custo para atender a escola pública.

Isso será possível?

Sim. As tecnologias que permitem um aprendizado mais moderno, como kits de robótica, caíram de custo uma ou duas vezes nos últimos anos. Além disso, nos últimos tempos a gente acumulou muito conhecimento técnico e de pesquisa na área. Hoje existe uma aceitação muito maior de tecnologia aplicada à educação.

Os professores estão preparados para usar tecnologia na escola?

Eles foram pegos de surpresa e, para ter resultado, é preciso treinamento. Uma coisa é dar uma aula expositiva de ciências, outra coisa é estar em um laboratório de ciências ou de projetos. É preciso outro tipo de formação. Um bom professor tradicional não necessariamente será um bom professor de projetos.

O investimento em tecnologia, por si só, melhora a educação?

Não adianta sair comprando tablets para a escola. Para cada R$ 1 investido no hardware, é preciso R$ 9 no currículo e na formação de professores. A tecnologia nunca é um elemento isolado, mas funciona quando faz parte de um pacote que envolve currículo redesenhado, formação do professor e novas formas de avaliação.

Como avaliar os resultados de uma tecnologia aplicada à educação?

Muitas iniciativas de ensino acabam sofrendo muito pela falta de métodos apropriados de avaliação. Tem um monte de projeto educacional de tecnologia implementado em escolas de elite que dá certo, mas qualquer projeto em uma escola de elite vai funcionar. Muitas vezes a gente treina alunos em natação e mede se eles conseguem correr. O que se aprende fazendo experimentos de robótica ou programação não é só matemática, mas também é resolução de problemas, por exemplo.

As avaliações tradicionais, como o Pisa [exame internacional de educação que avalia 65 países em ciências, matemática e línguas] estão sendo redesenhadas para isso. A partir deste ano, o Pisa vai ter uma forma para medir habilidades não cognitivas.

A OCDE também quer ter, a cada dois anos, uma prova para medir habilidades do século 21. Acabei de participar de uma reunião com líderes de educação de vários países para decidir o que deve ser avaliado além de ciências, matemática e línguas. Os próximos rankings do Pisa vão mostrar quão criativos são os alunos, quanto eles conseguem resolver problemas etc.

Se a gente não fizer nada na educação pública brasileira, vai ficar claro que somos ruins em matemática, em ciências e que também somos pouco criativos. Não dá mais tempo de parar 20 anos para consertar os problemas de matemática e depois olhar o resto. Precisamos cuidar das coisas básicas, mas também precisamos avançar. Não fazer isso é mesma coisa que fechar aeroportos para consertar só estradas.

O Brasil ainda pode ser o líder mundial de uma revolução educacional como você sugere em um dos seus livros recentes?

Sim, o que conseguirmos fazer funcionar no Brasil vai ter uma aplicabilidade muito maior do que dá certo na Finlândia, que é um país de 5 milhões de pessoas. Um modelo que trabalha com custos baixos, com professores com salários defasados, com dificuldades estruturais e com alunos de baixa renda.

Crise econômica é uma desculpa para termos educação de má qualidade?

Crise não é desculpa porque o dinheiro da educação é mal gasto por causa de má gestão e de corrupção. É claro que precisa de mais dinheiro, mas tem coisas de baixo custo que poderiam ser implementadas.

Na Tailândia, por exemplo, estão instalando laboratórios de criatividade nas escolas públicas. São "fablabs". Imagine se tivéssemos "fablabs" nas escolas públicas brasileiras? Quando o aluno se interessa pelo laboratório, ele passa a se interessar por outras coisas também.

Se a gente não fizer esse tipo de movimentação na escola brasileira vai ser muito difícil despertar o interesse dos alunos. O problema é que sempre quando estamos diante de um problema complexo, a gente busca a pílula mágica. Não tem bala de prata.

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