Publicado: Sábado, 07 Fevereiro 2015 10:47
  Autor: Fábio Pereira Ribeiro
  Fonte: Portal Exame


Diariamente penso na frase dos “mais velhos, dos mais sábios” onde a “educação na minha época era mais forte, mais séria”. Todos os dias penso em qual parte de nossa história erramos com a educação?

Por mais que os políticos e os pedagogos ideólogos de plantão desviaram o rumo de nosso maior pilar democrático, ainda prefiro olhar a educação como o único instrumento para a construção de um futuro verdadeiro para o Brasil.

Como bem lembrou o educador João Batista Araujo e Oliveira em sua obra “Repensando a educação brasileira”, em vários lugares do Brasil ainda há pessoas que se lembram “do Colégio Estadual”, seja ele o Júlio de Castilhos (RS), o Ginásio Pernambucano, o Caetano de Campos (SP), o Pedro II (RJ) ou de algum grupo escolar. A lembrança vem sempre associada com uma ideia de Escola que eles representavam: rigor, disciplina, ensino, meritocracia e professores respeitados. Essas instituições não surgiram do nada ou do voluntarismo de seus diretores. Elas foram criadas para serem assim, a partir de uma cultura e de normas aceitas pela sociedade. A escola tinha cara de Escola. Ela foi pensada para ser assim”. O que aconteceu? Por que tantos descaminhos?

 

Prefiro não apontar culpados, até porque nós cidadãos somos culpados pelo o que escolhemos e pelo que aceitamos. Prefiro pensar no que realmente podemos contribuir em reconstruir a educação brasileira (pelo menos no nosso quinhão de responsabilidade social). Prefiro pensar como São Francisco de Assis, invés de construir uma escola nova precisamos reconstruir as escolas já existentes. A sociedade brasileira se afastou de fato das escolas. As comunidades precisam abraçar suas escolas, pois só na escola que de fato a transformação pode ocorrer.

Infelizmente a crença na transformação pela educação tem escapado do espírito de esperança do brasileiro. Muitos erros e desmandos políticos alimentaram essa fuga, mas mais do que simplesmente culpar os políticos, percebo todos os dias que a própria sociedade se afastou literalmente do papel fundamental da educação e da escola. Muitas escolas públicas são tratadas como “depósitos de gente”, onde pais em suas rotinas diárias simplesmente “depositam” seus filhos para que diretores, coordenadores, secretárias e professores cumpram o papel complementar de “pais” durante o dia. Por sinal, eu apoio que o Congresso crie uma lei de isenção de Imposto de Renda para os professores de todas as redes públicas do Brasil, pois muitos exercem o papel de pais além de docentes, seria oportuno e complementar para suas rendas que já são minguadas, esse um dos grandes problemas do Brasil, o salário e a valorização de nossos professores.

Tenho certeza que todo brasileiro, e também qualquer cidadão do mundo, tiveram pelo menos cinco professores que marcaram suas vidas, que transformaram suas vidas. Então por que menosprezamos e não valorizamos os mesmos? Por que não cobramos das autoridades um verdadeiro empenho pelo trabalho dos professores? Simplesmente porque abandonamos a educação.

Nós cidadãos nos afastamos da escola, nos afastamos dos professores, nos afastamos do saber. Delegamos sem acompanhar efetivamente o desenvolvimento da educação. Cremos em algo em que não participamos. Como você pode sentir a educação se você não participa da mesma? Muitas escolas públicas estão abandonadas, não só pelos entes públicos e privados, mas também pelas comunidades. Diariamente assistimos violências contra escolas, contra o patrimônio.

Muitas escolas são literalmente “estupradas”. O saber é violentado todos os dias. Esquecemos o quanto cada um de nós têm responsabilidades diretas com a educação. Todos os dias assistimos violências contra professores, vandalismos contra o patrimônio e principalmente, violência contra o futuro de milhares de crianças brasileiras.

Os indicadores internacionais confirmam, o PISA, indicador da OCDE, apresenta que o Brasil está nas piores posições e condições. Nossa evolução no PISA não segue o tamanho do nosso país, tampouco o orçamento destinado para a própria educação, mesmo considerando o atual corte de R$ 7 bilhões, por sinal uma vergonha para uma Pátria que se diz educadora.

Somente seremos uma Pátria educadora quando a sociedade abraçar suas escolas. Por enquanto só temos discursos e reclamações, discursos políticos e reclamações da sociedade, mas atuar efetivamente já é difícil, não é? A violência que abraça cada escola nos municípios brasileiros é uma vergonha e um verdadeiro retrato da falência da sociedade brasileira.

Nossa sociedade usa uma nova cultura para a construção de uma nova tradição. Como bem lembrou João Batista Araujo e Oliveira em seu livro “Repensando a educação brasileira”, “a cultura virou entretenimento, ou seja, sua função é divertir e produzir imediato, o prazer se tornou o ponto de chegada, a curtição da travessia, não a curiosidade de continuar buscando. [...] O desafio consiste em reconstruir uma Escola que foi desconstruída”. O grande desafio é reconstruir um novo valor sobre a educação. Precisamos resgatar a participação da sociedade na Escola. A sociedade cobra posição sobre o crime organizado e sobre a violência instalada, mas nunca se impõe para cobrar efetivamente uma educação que realmente ataque isso. A violência no Brasil só acabará quando a educação se transformar em prioridade Zero para o país. Esquecemos de dar pesos em nossas re-invindicações, o Movimento Passe Livre tem mais peso do que um Movimento Por Mais Educação. Eu resolvo a logística do estudante, mas esqueço da qualidade da Escola. Enquanto a sociedade se afasta da Escola, o crime toma conta do espaço e a ignorância é instalada. Quando a ignorância se instala, a sociedade vira refém de políticos criminosos. E o mundo gira pela ignorância.

Invertemos todos os valores reais para a construção do saber. Nossos professores sofrem ameaças pelo crime e também por pais que questionam notas e não construção do saber. Muitos pais se matam para dar a melhor mochila, mas esquecem de lutar por um melhor sistema de ensino ou um melhor IDEB (avaliação) do próprio filho e da escola. Até que ponto os pais realmente valorizam a sustentabilidade de suas próprias famílias?

O saber é fundamental para a manutenção da democracia. Mas pelo andar da carruagem, a nossa sociedade tente a se afastar da própria democracia. Quanto mais nos afastamos das Escolas, mas nos afastamos da democracia. A ignorância é o prato feito para a ditadura. Que prato você quer comer?

P.S.: escrevo este texto depois de assistir diversos “estupros” contra escolas públicas.

Triste-realidade-na-area-da-educacao-brasileira

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