Publicado: Domingo, 03 Agosto 2014 16:39
  Fonte: Época negócio

Uma conversa com Peter Salovey, presidente da Universidade de Yale, sobre o ensino acadêmico nos EUA e no Brasil

Peter Salovey, presidente da Universidade de Yale (Foto: Divulgação)


“Não se deve dar aos alunos pacotes de informação, tipo: ‘eu tenho umas informações na minha cabeça e preciso colocá-las na sua cabeça’. A educação superior não diz respeito a isso.” A afirmação é de Peter Salovey, presidente da Universidade de Yale, uma das maiores dos Estados Unidos, com mais de 11 mil alunos e orçamento anual de US$ 3,2 bilhões, equivalentes a R$ 7,3 bilhões (para comparação, a cidade de São Paulo, com 12 milhões de pessoas, tem orçamento de R$ 50,6 bilhões em 2014).

 

Salovey é um defensor daquilo que classifica como educação liberal. “Ensinamos os alunos a pensar, a viver. Isso envolve saber leitura crítica, comunicação, análise de idéias complexas, trabalho em equipe”, diz. A seguir, Salovey fala a NEGÓCIOS sobre essas e outras diferenças entre o ensino superior nos EUA e no Brasil. Também diz como gasta o dinheiro da universidade, como a internet está afetando o modelo de negócios de Yale e por que ele está atrás de estudantes de outros países para levar para lá.

Você é presidente de Yale. Numa universidade americana, qual é a diferença entre “presidente” e “reitor”?
Quando fui reitor, eu tomava conta de uma faculdade específica [dentro de Yale]. Fui reitor da escola de artes e ciências, que é onde se formam os PhDs, e reitor da faculdade de Yale [a graduação]. Depois fui “provost”, uma espécie de vice-presidente acadêmico, para quem todos os reitores se reportam. Como presidente, tenho três papéis principais. Um é articular a visão da universidade e alinhar o campus em torno dessa visão. Outro é recrutar para cargos de liderança. O terceiro é representar a universidade externamente, o que pode envolver a busca por fundos, a execução de parcerias internacionais... Ser a cara da universidade.

O que veio fazer no Brasil?
Primeiro, participar de uma conferencia patrocinada pelo Santander, no Rio de Janeiro, que reuniu 1.100 líderes de diferentes universidades do mundo. Também assinamos acordos com universidades brasileiras, que envolvem programas para estudantes e colaboração em pesquisa. Com a FioCruz, assinamos um acordo global de colaboração em saúde. Com a USP, um que contempla diferentes áreas, particularmente psiquiatria e desenvolvimento de crianças. Amanhã vamos assinar um com a Santa Cruz, sobre estudos florestais e ambientais, que tratam do problema do desmatamento na Bahia.

Esses acordos significam que Yale vai colocar dinheiro de alguma forma nessas universidades brasileiras?
Não, eles não são acordos de alocação de recursos. Na verdade, são acordos para prover estrutura para pesquisa, aprimoramento de professores, identificar universidades com quem podemos trabalhar juntos em tópicos de interesse comum.

A internet tem mudado a educação superior, principalmente após iniciativas como a Khan Academy. Como você vê essas mudanças? De que forma abrir cursos grátis online (o que Yale faz) ajuda o modelo de negócios da Universidade?
Sobre os ‘MOOCs’ [massive open online courses, como a Khan Academy], acho que esses cursos, que todas as universidades estão oferecendo – nós temos 45 na Open Yale e agora fizemos mais quatro com a Coursera – são uma ótima forma de levar a universidade a um público que de outra forma não poderia ter essa experiência. Para um lugar como Yale, eles não competem de fato com o ensino em sala de aula. Eles vão para milhões de pessoas, enquanto nosso campus vai ter sempre somente 11 mil alunos.

Mas acho que o mais interessante [sobre internet e educação] é a forma como as ferramentas online estão mudando as aulas. Quando, antigamente, eu ensinava psicologia, costumava ir para a frente da classe e dar uma aula. Agora, faço o contrário. Coloco minhas aulas online, para que eles assistam como lição de casa, e aproveito o tempo em sala para fazer coisas muito mais ativas, que envolvem experimentos, interação em grupos, trabalhar diretamente comigo em discussões de pontos específicos. Acho que os alunos aprendem muito mais.

A maior parte das aulas de Yale já acontece dessa forma?
Não, não, isso está apenas começando. São as chamadas ‘flipped classrooms’ [aulas invertidas], onde se inverte aquilo que se faz como lição de casa e na sala. Outra forma como o online está mudando a educação é a criação de comunidades formadas para aprender em conjunto. Nossa escola de economia formou, com outras 27 universidades de negócios, uma pequena comunidade online que tem aulas conjuntas, grupos de discussão e até projetos.

Você acha que, para algumas carreiras, poderá haver uma formação totalmente online com o mesmo nível do curso presencial?
Acho que sim, em algumas áreas. Mais em educação profissional. Mas a questão é outra. Não se deve tentar dar aos alunos pacotes de informação, tipo: ‘eu tenho umas informações na cabeça e preciso colocá-las na sua cabeça’. A educação superior não diz respeito a isso. Não na tradição da educação liberal. O que tentamos fazer é ensinar os alunos a pensar e a viver, para o resto de suas vidas. E isso envolve aprender leitura crítica, comunicação, análise de ideias complexas, trabalho em time – e tudo isso funciona melhor com o ensino cara a cara. As ferramentas online podem melhorar isso tudo, mas não substituir.

Como assim “tradição da educação liberal”?
Educação liberal significa uma educação que cria o pensamento livre. A livre troca de idéias. A ênfase é menos no conteúdo específico, ou no conteúdo voltado especificamente para uma profissão – ainda que você vá ter isso também. Mas não importa o que você esteja aprendendo ou ensinando, a ênfase estará em habilidades como comunicação, pensamento crítico, debate de ideias. Não é simplesmente tirar informação da cabeça de um professor e enfiar na cabeça de um aluno – você terá isso também, claro, mas a ênfase é outra. A ideia é criar líderes. E isso tem menos a ver com conhecimentos específicos do que com a habilidade de pensar, se comunicar, criar, resolver problemas e trabalhar com outras pessoas.

Qual o orçamento anual de Yale?
É por volta de 3,2 bilhões de dólares.

De onde vêm os recursos?
Um terço vem dos ‘endowments’, que são basicamente doações que nos últimos 300 anos nós transformamos em investimentos e fizemos crescer. Nós gastamos mais ou menos 1 bilhão de dólares desse montante por ano. Outro terço vem da escola de medicina, principalmente contratos com o governo para fazer pesquisas e atendimentos clínicos. O outro terço é todo o resto: matrículas, ingressos para os jogos de futebol americano etc.

E de que forma vocês gastam?
A gente tenta se guiar pelo interesse dos estudantes: quais as áreas em que o mundo precisa de conhecimento e pesquisa agora? E, claro, o interesse da faculdade: onde já temos uma tradição acadêmica forte e podemos criar coisas grandes.

Quais as coisas mais caras nesse orçamento?
Universidades são basicamente pessoas e prédios. Essas são as duas principais categorias de gastos: pagar pessoas e construir – e manter – prédios. Manter prédios é bem caro. TI também é uma coisa cara, porque pesquisas precisam de computadores de alto desempenho. Essas são as duas grandes categorias, mas têm outras que são importantes também. Só em assistência financeira para estudantes, a gente gasta 120 milhões de dólares. Isso é para estudantes estrangeiros que vêm fazer faculdade em Yale: 65% dos estrangeiros que vêm a Yale têm algum tipo de assistência, que na média fica em 50 mil dólares por aluno. É bastante dinheiro.

Qual o percentual de estrangeiros em Yale?
Na graduação, mais ou menos 10% são estrangeiros. Para pós-graduação, um terço vem de fora. Em pós-doutorado, a maioria já é estrangeira.

Esses percentuais surgiram de forma espontânea ou vocês criaram algum tipo de cota?
Para pós e PhDs, foi espontâneo, porque os mais talentosos nesse nível estão espalhados pelo mundo, não estão nos EUA. Para graduação, fizemos um esforço consciente para aumentar esse número. Dez anos atrás, era 2% ou 3%, agora é 10% ou 11%.

Por que fizeram isso?
A gente acha que o ambiente acadêmico fica muito mais rico quando é composto por pessoas de diferentes partes do mundo. Especialmente a experiência de um estudante dos EUA, quando ele divide quarto ou estuda junto com estudantes que não pensam da mesma forma, que não vêem o mundo da mesma forma. Valores diferentes. A outra coisa é: a gente sempre tenta recrutar as pessoas mais talentosas, e elas estão por aí, não apenas nos EUA.

Nas universidades brasileiras, não se vê o mesmo senso de empreendedorismo que existe nas americanas. Por que o senhor acredita que esse elemento existe com tanta força lá?
Acho que algumas pessoas não percebem que a universidade pode ser um motor do desenvolvimento econômico. A pesquisa básica, feita na universidade, é um tipo de pesquisa difícil de fazer na indústria, porque está muito distante de ser um produto, mas é o tipo que vai fornecer os grandes insights lá na frente. Além disso, a forma como as leis de patente são escritas nos EUA encorajam as universidade a transferir a propriedade intelectual para os alunos [que criam produtos ou fazem pesquisas]. A universidade fica com uma parte de qualquer ganho futuro, mas transfere amplamente os direitos para quem desenvolveu o projeto. O governo encoraja isso mesmo para pesquisas que sejam bancadas pelo governo.

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