Publicado: Quinta, 05 Junho 2014 12:07
  Fonte: Correio Braziliense

Na área educacional, o consenso não é muito comum. Sabe-se, por exemplo, que um professor com boa formação é essencial para melhorar o desempenho escolar dos alunos. Mas não há consenso a respeito de como formar esse professor. Não é à toa que o ministro Henrique Paim colocou isso literalmente no colo e espera do Conselho Nacional de Educação proposta estruturante e inovadora, na qual a formação esteja efetivamente vinculada à sala de aula. Em outras palavras, que dialogue com o chão da escola.

Outro tema que todos reconhecem como absolutamente importante é a participação dos pais na vida escolar dos filhos. Um estudo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), liderado pela pesquisadora Beatriz Pont, mostra que, quanto maior for o engajamento dos pais na vida escolar dos filhos, melhores serão os resultados educacionais. Priorizar os vínculos entre as famílias e a escola é uma das políticas que devem ser adotadas para melhorar o ambiente de aprendizado em escolas desfavorecidas - em que os problemas econômicos e sociais são mais notados.

Recentemente, outro estudo do Instituto Ayrton Senna com a própria OCDE, realizado na rede estadual de educação do Rio de Janeiro, revelou que os pais engajados, mesmo tendo baixo índice de escolaridade, promovem grande impacto na aprendizagem escolar dos filhos. E promover o engajamento não é nenhum bicho de sete cabeças. São atitudes simples. Na grande maioria dos casos, a maior dificuldade consiste no tempo que hoje os pais dedicam aos filhos, em resultado da necessidade imposta pela vida moderna, em que ambos, pai e mãe, precisam trabalhar para ter uma condição de vida melhor.

Outra explicação para a distância que separa os pais da vida escolar dos filhos, conforme matéria publicada numa revista Veja de 2009, está na ideia incrustada no pensamento do brasileiro: a de que a escola deve se encarregar sozinha do processo educativo. Essa é a visão predominante na América Latina, oposta à que impera nos Estados Unidos ou em países asiáticos. "Os pais fazem fila na porta da minha sala para saber como vão seus filhos", relata Soleiman Dias, professor brasileiro que há sete anos dá aulas na Coreia do Sul. Essa atividade lhe consome uma hora por dia. Nada parecido com o que se vê na maioria das escolas brasileiras.

Mas, por entender que é preciso encontrar esse tempo e promover esse engajamento para a educação dos filhos, muitos pais estão colocando a criatividade e a força de vontade à disposição dessa importante causa. São atitudes simples, como disse, que podem impactar positivamente na vida atual e futura dos filhos, resultando em melhor desempenho escolar e mais chances na vida profissional. Segundo Beatriz Pont, é preciso dar apoio às crianças em casa.

Isso significa ajudar os filhos a priorizar a leitura, discutir as atividades escolares e criar um ambiente de aprendizado doméstico. Na escola, os pais devem participar de reuniões organizadas para eles e também de outras atividades. Outro caminho muito interessante que muitas escolas estão encontrando é a incorporação de jogos de tabuleiro e digitais ao plano pedagógico, que permite que os filhos os levem para casa, jogando com os pais e compartilhando experiências e resultados.

A importância do tema também tem chamado a atenção de muitos movimentos da sociedade civil engajados na luta por uma educação de qualidade. O Todos pela Educação, em parceria com outras entidades, inicia importante campanha nacional de sensibilização pelo tema a partir das suas cinco atitudes para melhorar a educação. O Educar para Crescer, da Fundação Victor Civita, tem desenvolvido estudos sobre o tema, além da edição de cartilhas de ajuda aos pais. O movimento A Educação Precisa de Respostas, do Grupo de Comunicação RBS, colocou o engajamento dos pais na vida escolar dos filhos como uma de suas bandeiras de atuação, com foco nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. E, mais recentemente, o movimento A Indústria pela Educação, da Federação das Indústrias de Santa Catarina, elegeu esse tema como prioritário.

Uma coisa é certa: não basta terceirizar para a escola a educação dos filhos. É preciso participar. Pais mais engajados são sinônimo de filhos promissores na vida escolar atual e futura. Com isso, ganham a cidadania e todos os elementos que a compõem.


MOZART NEVES RAMOS - Diretor do Instituto Ayrton Senna e membro do Conselho Nacional de Educação

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