Publicado: Quarta, 30 Abril 2014 17:39
  Fonte: Portal Jornalismo Porto Net

 

Apesar da maioria dos estudantes do secundário ainda pretender dar o salto para o mundo universitário, a opção tem vindo a perder peso. Além do desejo de independência financeira, cada vez mais jovens apontam razões económicas para não querer continuar a estudar.

 Educação: Menos estudantes pretendem ir para o ensino superior
Vontade de entrar na universidade baixou quase oito pontos percentuais desde 2008
Ilustração: Ana Bárbara Matos

 

 

Há três anos, João Pedro Pereira decidiu fazer contas à vida - e para a vida. Entrou no Ensino Secundário, para o curso Socioeconómico. Nessa altura, equacionava ir para a faculdade. Hoje, no 12.º ano e após a prova dos nove, a vontade de continuar a estudar esmoreceu.

João Pedro é um dos 17,3% dos alunos à saída do secundário do ano letivo 2012/2013 que não querem prosseguir os estudos. De acordo com o estudo publicado recentemente pela Direção-Geral das Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), um em cada seis estudantes do Secundário partilham da decisão de João Pedro.

Diogo Costa, da Escola Secundária D. Afonso Henriques, de Santo Tirso, segue o mesmo caminho. No nono ano, decidiu dedicar-se às Ciências e Tecnologias, esperando que estas o levassem à universidade. Dois amigos, cursos diferentes, caminhos paralelos. Para Diogo e João Pedro, o desejo de estudar foi diminuindo, enquanto a determinação em integrar o mercado de trabalho foi crescendo.

E estudos lá fora?

Cerca de metade dos estudantes do secundário vêm-se a fazer formação em países da Europa. Entre estes, 49% dos inquiridos considera fazer um período de estudos, enquanto 26% pretende fazer um estágio e 20% um curso. São as raparigas que mais admitem vir a fazer formação além-fronteiras (53% face a 46%), revelando deste modo expetativas de percurso escolar mais ambiciosas.

O estudo da DGEEC confirma que esta vontade de arranjar um emprego para ter o seu próprio dinheiro é a razão principal (52%) para o fim do percurso académico dos jovens portugueses. Segue-se a falta de gosto pelos estudos, que é mencionado pelos dois amigos e por 31,8% dos estudantes que se ficam pelo Ensino Secundário.

Ainda assim, entre as justificações para a não continuação dos estudos, a que mais cresce nos últimos cinco anos é a das dificuldades económicas. "Não queria estar a sacrificar os meus pais e depois não ter emprego", diz João Pedro, que se encontra entre os quase 30% dos estudantes com limitações financeiras. Um número que tem vindo a aumentar desde 2008, ano em que se ficava pelos 22,4%.

A maioria dos estudantes do secundário (68%) continua a pretender prosseguir os estudos depois de concluir o 12.º ano. O mesmo estudo da DGEEC revela ainda que uma minoria (1,3%) não quer acabar o secundário, o que representa um aumento de 0,5 pontos percentuais face a 2008. Entre os estudantes do secundário, ainda há os indecisos: 13,5% dos estudantes não tem opinião formada, um número mais alto do que o registado em anos anteriores.

Uma decisão com peso e média

João Pedro e Diogo fazem parte dos 5,2% dos estudantes de cursos Científico-Humanísticos que não seguem para o Ensino Superior após a conclusão do 12.º ano. "Comecei em Ciências e Tecnologias, mas a experiência não correu lá muito bem", explica José Silva, que também já se incluiu nesta estatística. "Da minha turma, penso que apenas cinco ou seis não entraram - isto, em vinte e poucos alunos".

José esteve dois anos no curso de Ciências e Tecnologias, mas decidiu trocar os números pelas letras. "Como já acabei o secundário um pouco tarde, achei que seria desperdiçar mais três ou quatro anos da minha vida quase em vão". De acordo com o inquérito da DGEEC, à medida que se perde anos ao longo do percurso escolar, menor é a vontade de prosseguir os estudos no Ensino Superior.

O jovem terminou o 12.º ano na Escola Secundária da Maia no ano passado, com média de 16,5 valores. "Tive alguns professores que me sugeriram que continuasse a estudar, pela média que tinha. O mesmo da parte de alguns amigos. Até havia alguns, em tom de brincadeira, que me pediam para trocar a média já que não queria seguir um curso superior", partilha.

As notas são frequentemente um entrave para os estudantes. Com médias compreendidas entre os 10 e os 14 valores, cerca de 18% termina o 12.º ano e não prossegue para a universidade, valor que decresce para perto de 7% entre os 15 e os 17 valores e apenas 1,5% entre os 18 e 20.

E agora? Mãos à obra

José é um dos muitos jovens à procura do primeiro emprego. Marlene Fernandes também já passou por essa situação, mas conseguiu estabilizar a vida. "Consegui ter sempre emprego até agora, embora não fixo. Juntei dinheiro, tenho um carro pago. Tenho a vida mais ou menos organizada", explica.

Hoje, a antiga estudante do curso profissional de Apoio Psicossocial da Escola Secundária de Tomaz Pelayo, de Santo Tirso, com 20 anos, não se arrepende de não ter ingressado na faculdade. "Se tivesse a oportunidade de voltar atrás, provavelmente faria o mesmo, a menos que tivesse mais apoio. Nesse caso pensaria duas vezes".

José considera também estar a tomar a decisão certa. "Não acho que neste momento fosse uma vantagem assim tão grande ter um curso superior na entrada no mercado de trabalho". Marlene concorda: "Já trabalhei em grandes cadeias alimentares e tanto estava lá eu como pessoas mais formadas".

Expetativas públicas e privadas

O estudo concluiu também que são os alunos que frequentam um estabelecimento de ensino público que tendem a considerar mais prosseguirem os estudos no pós-secundário (74% face a 53%). Ao mesmo tempo, são os estudantes do ensino privado os que mais têm dúvidas relativamente ao futuro escolar ou profissional (19% face a 12%).

E foi esta uma das razões para Marlene para entrar no mercado de trabalho. Na altura, estava indecisa. "Havia muitas pessoas que me diziam para não ir para a universidade, por ficar muito caro e não valer a pena".

De modo a ter em conta as duas opções, a jovem optou pelo Ensino Profissional, área na qual cerca de 40% dos estudantes terminam o secundário e não prosseguem estudos. O valor mais elevado entre todos os tipos de cursos.

Cátia Castanheira também se inclui nesta percentagem. A antiga estudante da Escola Secundária Marques Castilho, em Águeda, hoje, no mercado de trabalho, considera que o número de ingressos no Ensino Superior poderá continuar a decrescer. "Os meus amigos que estão a acabar o 12.º ano também não têm grandes hipóteses financeiras, nem têm a ambição de seguir para a universidade".

Na sua antiga turma, de 18 alunos, do curso profissional de Técnico de Contabilidade, apenas um terço seguiu para faculdade. Os restantes encontram-se a trabalhar. "Só um ou dois é que estão na área da Contabilidade. Conseguiram arranjar emprego mesmo só com o 12.º ano", explica.

Apesar de ter aumentado o número de diplomados do Ensino Secundário, por vezes, o caminho é "ficar pelo caminho": o número de candidaturas em regime geral do concurso nacional de acesso ao Ensino Superior diminuíram em relação a 2008.

O estudo da DGEEC conclui ainda que as expetativas dos estudantes em relação ao seu futuro são diferentes consoante as habilitações escolares das famílias: os provenientes de famílias com menor escolaridade são os que mais ponderam ingressar no Ensino Superior Politécnico (13,3%) ou uma formação especializada não superior (6,5%).

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